E começou mais uma novela. E antes que ela caia em perdição ou se perca num marasmo desértico ou se enovela mais em vez de desatar, digo: gosto muito de novela.
“Novela é como um novelo que vai se desenrolando aos poucos” - Janete Clair
A rotina se seguia, inabalável. Cotidianamente, o dia a dia, diariamente, transcorria sem pressa. Enquanto minha mãe era convocada ao trabalho, eu atravessava a rua – o corpo infantil de nove, dez anos – rumo à casa de jardim selvagem e cachorros mansos: a casa da avó. Lá era o lugar mais incrível que eu conhecia, embora nenhum atrativo tivesse. Contudo, aquele sítio tombado em plena avenida movimentada, guardava algo de especial, talvez nos móveis ou no cheiro, quem sabe enxergar, com meus olhos meninos, aquela sólida e inexistente grandeza na casa, tivesse uma relação com os hábitos que lá se tinham. As horas paliativas, antiquadas, a palavra certa: brejeiras, eram mágicas. E por isso, eu enxergava múltiplas sendas além do mato ralo do quintal. A infante alma que faz do limoeiro um dragão, um castelo, ou uma árvore de limão mesmo que já é divertida por si só, quando se é criança.
Porém, no fim da tarde, o aroma do fermento em gradação dentro do forno, o pão fresco saindo da padaria ao lado e, deliciosamente, em contra partida, dentro de casa, o perfume do café. Cansado de brinca brincar, ligava eu a tevê. Vó fazendo das meias, da touca, da blusa empunhadura de uma frialdade de velhice, agasalha-se para a maratona de novelas, uma atrás da outra. Fora da qualidade daquilo que é apenas de prática frequente, assistir novela entrou injetada, como bala mágica, hipodérmicamente, em minhas veias. Assim como o frio da minha avó em completo verão.
Hoje, anos depois, vejo novela como uma senhora na poltrona, de ouvidos acessos à radionovela. Como um moleque que, com fotonovela na mão, aprende como ser um conquistador. Não compete, aqui, questionar a alienação das massas. Assim como se vai ao cinema ou ao teatro, vê-se novela. Evolar-se e bater cabeça por uma ideia, dá na mesma, na televisão, no teatro ou no cinema. Falo de gosto da herança deixada - invertendo o olhar minúsculo que é dado ao folhetim -, falo da incrível criadora Janete Clair – agora que O Astro acabou, vamos cuidar das nossas vidas, escreveu Carlos Drummond de Andrade –, da São Paulo parada para saber quem é o assassino de A Próxima Vítima, das míticas Helenas, da complexidade de O Grito, do humor de O Bem Amado, das discussões morais de Pecado Capital, do fantástico em Saramandaia, das polêmicas de Gilberto Braga. A novela é criticada, claro, parece hoje coisa em desuso, típica, repetitiva, como o pretinho básico. Aí está a chave: embora antiquíssimo, todos têm seu pretinho básico no armário. Essa observação pode ser machista (feminista, dependendo do olhar), mas homem também assisti novela e muito. Lembro de estar no trem e dois caras ao meu lado falando sobre alguma coisa, depois de algum tempo a conversa tomou outro rumo, começou a discussão e, como numa briga de bar com o truco na mesa e o futebol na tela, todo mundo no vagão soube que um queria que a Jade ficasse com o Lucas e o outro, com o Said.
Assim, como come-se depois das sete e antes das oito, como, de manhã, compra-se o pão e capina-se o quintal, assistir novela a partir das cinco e meia é de lei, como se diz na casa da minha avó. Levei essa lei comigo, levaram essa lei, salvas as exceções, todos os brasileiros.
Olá, Maurício
ResponderExcluirVi seu comentário no meu blog.
Eu vi apenas alguns capítulos em vídeo de "O grito", pois tinha pouco tempo disponível para consultar o acervo da Globo.
Se você tiver alguns capítulos, eu adoraria ver.
Podemos trocar informações, se te interessar.
Meu email é sabina.anz@gmail.com
Um abraço,
Sabina